11.3.16

Words from the heart | A minha avó

A minha avó era uma mulher cheia de força, garra e de emoções. Lembro-me de me sentar muitas vezes ao seu lado e de ela me dizer que gostava muito de ter continuado os seus estudos e que ficou imensamente infeliz quando os pais dela decidiram ao fim do quarto ano tira-la da escola. Justificava-os dizendo que naquele tempo a escola era vista como sendo apenas necessária para os meninos e que as meninas apenas precisavam de fazer o mínimo. Sempre que falava disto os seus olhos brilhavam. Metade por emoção e a outra metade por orgulho de ao fim de tantos anos ainda ter guardado o diploma da quarta classe que não se cansava de mostrar como que a provar que aquilo que dizia era de facto verdade. 

Contava com alguma tristeza como foi mãe solteira num tempo em que não o deveria ter sido. Como o pai do seu filho não quis saber dela assim que soube que ela se encontrava grávida, mas sempre com a gratidão na voz por os seus pais a terem apoiado numa altura em que não deve ter sido fácil fazê-lo já que era contra as normas da sociedade da altura. Acabou por se casar com aquele que seria o avô que nunca conheci a não ser por fotos. Referia-se a ele como "o meu companheiro, aquele sacana". Era muito pequena quando um dia olhei para o seu braço e lhe perguntei o que era aquela marca que ela tinha. Disse-me que tinha sido o seu querido companheiro, aquele sacana que um dia ao chegar a casa e depois de se deparar com o ferro de passar a roupa ainda em cima da banca lho pousou no braço de forma a provar que ela era uma mentirosa e preguiçosa porque o ferro já estava frio. Estava quente e aquela marca ficou para sempre no seu braço. Foram tantas as histórias que fui ouvindo acerca do meu avô que com o tempo apercebi-me que não me lembro de alguma vez ter ouvido algo de bom acerca dele. A minha avó foi vitima de violência doméstica num tempo em que este termo não existia. 

Viveu em Moçambique antes do ultramar. Adorou viver lá e contava como as outras mulheres a olhavam de lado por não ter uma pretinha a tratar-lhe da casa. Relatou-me mil e uma histórias acerca das peripécias que se passaram tanto em Moçambique como em Portugal levadas a cabo pela minha mãe e pelo meu tio. Contou-me como deixou de gostar de bananas e como foi horrivel fazer aquela viagem de barco de Portugal a Moçambique e depois de Moçambique até Portugal.
A minha avó e o meu avô construíram duas casas. Trabalharam ambos na construção de ambas. Uma delas tornou-se na casa onde sempre vivi e a outra que fica mesmo ao lado acabou por ser vendida depois do divórcio que ocorreu logo depois do 25 de Abril. A minha avó nunca mais voltou a apaixonar-se. Já o meu avô voltou a casar-se e apesar de viver relativamente perto acabou por perder o contacto com os filhos. 

Não sei se alguma vez a minha avó foi verdadeiramente feliz. Acho que não. Nunca me pareceu uma pessoa verdadeiramente feliz. Parecia-me uma pessoa que teve alguns momentos felizes, mas as circunstâncias da vida nunca lhe permitiram que fosse feliz na totalidade. Pergunto-me: como se poderá voltar a ser feliz quando um dos nossos filhos nos escreve uma carta durante a guerra a pedir para deixarmos de lhe escrever, a dizer-nos que não vai voltar a casa e que se quer esquecer da família? Não, não acredito que ela alguma vez tenha voltado a ser feliz se é que alguma vez o foi. A minha avó nunca mais voltou a ver o filho que teve em solteira, mas em momento algum deixou de o procurar. 

A minha avó foi uma grande mulher. Sempre quis e sempre gostou de trabalhar e gostava tanto do local onde trabalhava e do seu patrão que um dia quase que andou à porrada porque os seus colegas de trabalho que se encontravam a fazer greve não queriam deixa-la passar. A minha avó era uma mulher do campo e que gostava de cultivar e de ir vender os seus produtos para a feira. Um dia andou à porrada com outra feirante porque esta lhe roubou o lugar e recusava-se a sair do sítio que não era seu. Nunca ficou a dever nada a ninguém e não descansava enquanto as pessoas não lhe pagassem o que deviam. Não gostava de maquilhagem e dizia com todo o orgulho que possam imaginar que nunca se tinha maquilhado, nunca tinha pintado as unhas e o cabelo e acreditem no que vos digo: ela tinha uma pele absolutamente impecável mesmo sem usar qualquer tipo de creme de rosto. Era a favor da despenalização do aborto, mas achava que a homossexualidade era uma doença (perdoem-lhe). Adorava falar e contar histórias caricatas. Também gostava muito de passear, mas detestava a agitação dos shoppings, a invenção das escadas rolantes e queijo. A minha avó gostava muito de flores, mas não suportava a ideia de lhe darem um ramo de flores. Dizia sempre para lhe darem antes as sementes para que ela as pudesse semear e vê-las crescer. Um dia fui a Espanha e trouxe-lhe uma sevelhana pequenina em louça e tornou-se na sua coisa preferida. 

Para além de uma grande mulher também era uma grande avó. Cozinhava sempre a minha comida preferida: batatas fritas com bife e deixava-me comer na sala em frente à televisão sem que os meus pais soubessem. Um dia deixou-me faltar às aulas porque eu queria muito ajudá-la a tratar dos coelhos. Deixava-me sempre mudar de canal quando ela se encontrava na sala a ver programas de adultos e eu queria ver desenhos animados. Todas as segundas-feiras, quando voltava da casa do meu tio, trazia-me um docinho e dizia-me para não dizer nada aos meus pais. Nunca me bateu mesmo quando eu estava a ser uma autêntica peste. Um dia insisti muito para que ela me levasse a Espanha porque queria comprar os famosos caramelos. Era muito pequena e pensou que iria conseguir enganar-me com relativa facilidade, mas quando chegamos ao local disse-lhe "É "panha" nada, é "pinho"!" (tradução: "É Espanha nada, é Espinho!") ela achou tanta piada que um dia levou-me mesmo a Espanha. 

A minha avó era uma grande mulher e uma grande avó, mas também era uma pessoa e como qualquer pessoa também tinha o seu lado negro, mas disso não me apetece falar. Pelo menos não hoje. 


11 comentários :

  1. Fiquei tão emocionada com o teu texto! Chorei ao ver a maneira tão querida como descreveste a tua avó! Uma pessoa genuína e ímpar! Com uma história complicada de vida. Mas sabes eu acredito que foram esses pequeninos momentos que lhe concederam a felicidade que nenhuma de nos poderá comparar! Fiquei brutalmente assustada quando li o episódio do ferro! Beijinhos

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  2. Ainda bem que tens essa imagem tão bonita da tua avó! Muitas vezes não percebemos que as pessoas são como são porque viveram tempos mais rudes e complicados que os nossos. Isso fez deles pessoas mais fortes, de uma fibra diferente.
    Gostei muito!

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  3. Que texto tão lindo... A tua avó ia adorar lê-lo! (:
    Beijinho grande*

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  4. Acabei o teu texto a chorar porque revi a minha avó em tantas das tuas palavras! (:

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  5. Amei ler este texto Raspberry. Todos os dias sinto saudades da minha avó, fizeste com que ficasse com mais ainda! :)

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  6. Gostei muito de ler isto (=

    Uma das pessoas mais importantes da minha vida é a minha avó materna, fiquei cheia de saudades dela a ler isto. Teve uma vida diferente da da tua, mas na mesma com muitos altos e baixos e manteve-se (e mantém-se, felizmente) sempre forte. Acho que ter avós é das melhores coisas do mundo (=

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  7. Que texto lindo... e a minha avó também viveu em Moçambique, aliás o meu pai nasceu lá e lá ficaram até ele fazer 21 anos. Passaram por tanto :/

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  8. A tua avó era sem duvida uma grande mulher =))

    Beijinho*

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  9. A tua avó foi uma mulher brilhante e dava um belo livro digo-te já :) Adorei "conhecê-la" com este texto

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  10. Tenho tantas saudades da minha avó...também ela foi uma grande mulher e um exemplo para mim! Apesar de ter uma grande cumplicidade com o meu avô, a minha avó também foi muito, muito importante para mim! Foram os dois! Quem me dera ainda poder tê-los por perto!

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  11. Tanto sentimento junto, identifiquei-me imenso com este texto, sobre a vida da minha avó que não foi de todo diferente da tua.
    As avós e as mães deviam ser para sempre...

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