29.1.16

Pessoal | Acerca da Raspberry que um dia fui



Por casa dos meus pais existem dezenas de fotografias desde que nasci até aos meus dez anos. As suficientes para preencherem cinco álbuns. São fotos comigo sentada ao pé de um chafariz a comer pipocas de mil cores, sou eu na praia de fato-de-banho a montar os meus castelos de areia, sou eu na piscina a fingir que sei nadar, sou eu com os óculos de sol do meu pai, sou eu com o balão acabado de comprar, sou eu com o meu vira-vento, sou eu a andar de bicicleta, sou eu a fazer palhaçada, sou eu a fazer um sorriso estúpido, sou eu em poses que valha-me a nossa senhora, sou eu aqui e ali e a fazer isto e aquilo. No entanto a partir dos meus 10 anos e até aos meus 20 algo aconteceu e deixei de querer que me fotografassem. As fotografias que existem de mim ao longo desses anos podem-se contar pelos dedos e cinco delas foram tiradas no meu primeiro ano de faculdade. Nessas cinco pareço realmente feliz, nas outras pareço uma pessoa que está a ser temporariamente torturada pela máquina fotográfica. 

Agora olho para trás e se por um lado tenho pena de não ter tirado mais fotos, por outro lado não me sinto minimamente arrependida por não o ter feito. O que é deveras contraditório, mas a verdade é que não existe muita coisa que gostaria de recordar durante essa década em que não fui particularmente feliz nem com as pessoas que comigo se foram cruzando nem comigo mesma. 

Tudo isto para vos dizer que um dia desta semana encontrei uma fotografia minha que não sabia que existia. Uma fotografia onde estou eu e o meu namorado. Ele a dar-me um carinho e a rir-se e eu a ignorar a objectiva da máquina e a olhar na direcção oposta. Um meio sorriso. Toda encolhida e altamente constrangida. Trata-se de uma foto que foi tirada pelo pai do meu namorado quando namorávamos há pouco mais de três meses e enquanto olhava para aquela fotografia só conseguia pensar na forma como me via naquela altura em oposição à forma como me vejo hoje em dia. Naquele momento vi uma Raspberry que já não sou, mas que ainda conheço como a palma da minha mão. 

É incrível como uma objectiva de uma máquina fotográfica consegue captar muito mais do que está à superfície e naquele momento vi tudo aquilo que era em flashback. Uma Raspberry em construção. Uma Raspberry com problemas onde o principal era a falta de amor próprio. Era uma Raspberry incapaz de usar calções, saia e vestidos porque achava que as suas coxas e sobretudo os seus gémeos eram do tamanho do mundo. Era uma Raspberry que era incapaz de usar um batom vermelho e / ou um vestido justo porque achava que chamaria demasiado a atenção e que toda a gente iria notar como era barriguda. Era uma Raspberry que não pintava as unhas nem as deixava crescer porque nem das suas unhas gostava. Era uma Raspberry que corria todos os dias e que jogava ténis durante horas. Era uma Rasbperry que comia pouquíssimo. Era uma Raspberry infeliz. Era uma Raspberry que se encontrava em auto-destruição dia após dia. 

Não sei ao certo quando a mudança se deu, mas estarei eternamente agradecida por se ter dado e apesar de continuar a ter uma visão ligeiramente errada e distorcida do meu corpo, também sei que me sinto muito mais bonita e confiante com o meu corpo de 65kg do que alguma vez me senti no meu corpo de 47kg. Não foi só a aparência que mudou, mas também a forma como olho para o mundo, para mim mesma e para a objectiva da máquina fotográfica. A Raspberry daquela foto já não existe.   

8 comentários :

  1. Parabéns, Raspberry. Aprendermos a gostar de nós próprias pode ser uma das coisas mais difíceis que alguma vez tivemos que fazer (mas é também uma das melhores). Parabéns por teres conseguido :)

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  2. A forma como olhamos para o mundo diz tudo. E ainda bem e claro parabéns por teres aprendido a gostar de ti. E já agora, aquelas fotos embaraçantes no banho e na sanita também tens? :P
    E não te sintas sozinha, eu até fecho os olhos quando vejo as poses de fazia xD

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    1. Tenho uma no banho, quando era bebé em que não se vê absolutamente nada de outro mundo e que não é nada embaraçosa. Na sanita não tenho nenhuma (ainda bem!), os meus pais nunca gostaram de tirar essas fotos típicas :) as que me envergonham são aquelas em que eu pousava mesmo como bem me apetecia a achar que era a super modelo ali do sítio xD

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  3. Quando crianças tiram-nos muitas fotos porque somos a alegria da casa. Depois crescemos, e aquela coisa típica das crianças - a ingenuidade, a sinceridade, que é tão enternecedor, vem equilibrado com outras coisas. E já não se tem menos de um metro de altura, rsss.

    Eu acho que vais sentir saudades sim. Ainda bem que gostas de ti mas acho que vais sentir saudade de recordar tu em todas as etapas. Eu era a que tinha sempre a camera na mão, pelo que eu fiz os filmes e tirei as fotos. Também apareci em algumas, mas sempre pouca coisa. Hoje tenho pena de não ter, pelo menos, uma foto de «estúdio», algo bem tirado, como aqueles retratos antigos...Para poder olhar para trás e encontrar uma prova de que cheguei a ser diferente do que sou. Isto de ver o rosto a envelhecer ao espelho é doloroso... Mas o melhor é nem pensar nestas baboseiras e aproveitar o momento.

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  4. É fantástico o que as fotografias e as músicas nos fazem sentir, mesmo que se passem anos sem as vermos/ouvirmos. É bonito vermos a autoconfiança a erguer-se, e olharmos para uma parte de nós que já não existe. Ainda bem que assim é!

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  5. O mais importante é que sintas que essa mudança te transformou numa pessoa mais forte e confiante. Às vezes interrogamo-nos sobre como é possível termos mudado tanto e sermos uma pessoa bastante diferente daquilo que já fomos e isso é normal. Aliás, é bastante saudável que hoje consigas ver determinadas situações com outra maturidade e segura de ti :)

    The Brunette Lingerie

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  6. Imagino o quão bom deva ser olhar para essa foto e ver que já demos vários (e enormes) passos em frente!

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