6.11.15

Pessoal | No matter how dark it gets

Se houve algo que a morte da minha avó me ensinou foi que não existe um prazo limite para vivermos a fase de luto. Há quem precise de apenas algumas semanas ou meses e há outros que precisam de vários meses ou anos para se sentirem inteiros novamente. Houve alturas em que achei que já tinha passado e que estava bem para passadas poucas semanas me sentir novamente abandonada, perdida e zangada com a minha avó que partiu sem aviso prévio deixando-me órfã de avó e vazia de sentido. Foi nesse momento que percebi que me fazia falta um Deus qualquer em que eu pudesse acreditar e ter fé. Fazia-me falta um Deus qualquer que me fizesse acreditar que realmente o céu existe e que era lá que a minha avó se encontrava. Fazia-me jeito ter fé num Deus qualquer que me fizesse acreditar que a minha avó se encontrava em paz. Um Deus que me fizesse ter fé que um dia deixaria de doer e que tudo ficaria bem. No entanto, continuei igual a mim mesma. Sem Deus. Sem fé em algo divino. Sem religião.

Com a morte da minha avó aprendi que não devemos apressar as coisas porque "That's the thing about pain. It demands to be felt" (John Green, The Fault In Our Stars). O meu erro foi camuflar a dor; evitar as lágrimas; sorrir quando queria desaparecer; fingir que estava tudo bem quando por dentro estava tudo uma merda; fingir a existência de uma felicidade extrema quando o que sentia era uma tristeza tão profunda acompanhada por um vazio sem fim; ser quando queria não-ser.

A dor não desaparece pelo simples facto de querermos que ela nos deixe. A dor acompanha-nos para onde quer que seja por tempo indeterminado até que um dia acordamos e tudo fica mais leve. Há quem precise de um Deus para isso. A certa altura até eu achei que precisava de um Deus para curar a minha dor, mas do que realmente precisava era de um bom episódio de Grey's Anatomy. Não, não estou no gozo. Durante um ano e meio a dor que senti por ter perdido a minha avó acompanhou-me todos os dias mesmo quando eu estava concentradíssima em ignora-la. No entanto, lembro-me como se tivesse sido hoje o dia em que o processo de cura foi iniciado. Foi no último episódio da temporada 11 de Grey's Anatomy algures em Março quando a Meredith disse:



Nesse dia chorei o que havia para chorar e fui chorando todos os dias em que senti que devia chorar até que um dia simplesmente deixou de doer. Depois da dor só a saudade permanece. 

7 comentários :

  1. Sinto muito pela tua perda. Infelizmente sei o que isso é e desculpa-me a expressão, é uma merda. Tens toda a razão quando referes que a dor não desaparece só porque queremos e que nos acompanha para todo o lado durante tempo indeterminado. Cada pessoa reage de maneira diferente, mas sou da opinião que se estamos mal, devemos chorar e não guardar tudo cá para dentro que só nos faz mal. Também não tenho propriamente uma relação com a religião, mas gosto de pensar que as pessoas partem para um algures melhor ou então que simplesmente estão em paz, ponto. Como fã de Grey's Anatomy, lembro-me perfeitamente do episódio em que a Meredith disse essa quote. É incrível como algo tão trivial como um programa de televisão nos pode ajudar em alturas de crise :)

    Ricardo, The Ghostly Walker.

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  2. Que lindo. Impressionante como algo tão simples pode fazer uma diferença tão grande numa fase menos boa da nossa vida :')

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  3. A perda de alguém muito próximo de nós deixa-nos sempre demasiado mal. Saber que nunca mais vamos ver a pessoa, ouvir a sua voz, tê-la presente na nossa vida magoa demasiado. Mas queres que seja honesta? Com o tempo, vamos aprendendo a lidar com a dor. Com o tempo, apesar das saudades aumentarem exponencialmente, vamo-nos habituando à ausência da pessoa. A dor nunca desaparece nem é isto que estou a dizer: apenas digo que o tempo atenua tudo (menos, claro está, as saudades). Mas, para tal, é preciso que choremos tudo na altura certa.
    Muita força para as alturas em que há uma falha no tempo e a dor invade-nos o peito outra vez, Vai doer sempre. E só nos temos que habituar a isso.

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  4. cada pessoa tem o seu processo de luto.. Mas há frases que nos marcam na altura certa, e essa foi uma delas

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  5. Percebo bem do ue falas. Não há prazo limite para a dor. Antes o houvesse...

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  6. As vazes é preciso um catalisador, algo que nos faça libertar da dor. Nunca perdi alguém da família realmente próximo, mas perdi uma amiga de infância e além de já terem passados muitos anos, a dor e a saudade ficam sempre,

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  7. Amei ler este texto Raspberry e fico contente por finalmente teres iniciado o teu processo de cura. As minhas avós já me deixaram as duas, a primeira faz 10 anos no próximo ano e sinceramente que nunca iniciei esse processo com ela!

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