15.5.15

Livros | "On my own I was invisible again"

Não será assim que muitos de nós olham para os sem-abrigo com os quais nos vamos cruzando ao virar de uma esquina, a caminho de casa ou ao pé da paragem onde costumamos apanhar o nosso autocarro para mais um dia de trabalho? Sabemos que estão ali e ao mesmo tempo é como se não estivessem. Ainda não disseram nada e já nós estamos a olhar na direcção oposta e a caminhar disfarçadamente para o outro lado da rua. Ainda não nos pediram nada e já sabemos que não queremos ter nada que ver com eles. Ainda não perguntaram se temos uma moedinha para lhes dar e já temos um “não” preparado na ponta da língua. Não queremos saber a sua história nem como foram parar àquela situação, mas pomo-nos à adivinhar que foi certamente uma qualquer dependência e que o dinheiro que nos pedem é para alimentar o vicio e não um estômago vazio. O que vale é que existem muitos outros que olham para estas pessoas com olhos de ver. Que se preocupam e que estão dispostos a dar a tal moedinha ignorando se esta será usada para alimentar o vicio ou para reconfortar o estômago.

Confesso que é um assunto complicado e que tem muito por onde se lhe pegue, assim como também confesso que nem sempre ajudo aqueles que me pedem dinheiro. Como em tudo na vida: há o bom e o mau e se há os sem-abrigo que ficam realmente felizes e agradecidos pelo que lhes estamos a oferecer (quer seja muito ou pouco) também há aqueles que reclamam quando damos apenas 50cent ou 1€ dizendo que não dá para nada. Há os que aceitam de bom grado que lhe paguemos algo que possam comer e há os que se recusam dizendo que preferem dinheiro. Como eu disse: é um assunto complicado. No entanto, continuo a achar que nada nos dá direito a tratar alguém como se essa pessoa fosse invisível nem a maltratá-la a troco de nada. Se queremos ajudar ajudamos; se não queremos não nos custa nada dizer que desta vez não podemos e que fica para uma próxima.  



A Street Cat Named Bob (2012) fala de tudo isto e muito mais. Fala de um gato chamado Bob que surge inesperadamente na vida de James – um Londrino que ganhava a vida a tocar músicas de bandas como Nivarna e Nine Inch Nails e que lutava contra o seu vicio da droga. De repente e com um novo companheiro a sua vida ganha mais cor e um novo sentido. É principalmente este novo sentido - o de responsabilidade por ter mais uma boca para alimentar e um novo ser para cuidar – que James vai fazendo pequenas mudanças na sua vida sendo que a principal mudança a que se propõe é a de se livrar totalmente da sua dependência.

Apesar de não achar que se trate de um livro espectacular não deixa de ser um livro interessante e que nos faz pensar na natureza humana na sua forma mais crua. É um livro que aborda não só os momentos felizes vividos por James na companhia do seu gato, mas também os momentos de solidão, angústia e de crueldade humana. Pessoalmente, foi um livro que me fez pensar no como a sociedade em geral trata não só os sem-abrigo, mas também como olha para todas aquelas pessoas que tocam e pintam na rua (que podem ser sem-abrigo ou não), mas principalmente fez-me pensar em como eu própria olho para essas pessoas. 


6 comentários :

  1. Eu sinceramente pesa me no coração ver alguém na rua e saber que não têm sitio para ir.. Mas também não sei como ajudar.. Dar uma moeda? Já reclamaram comigo a dizer que não dava para nada?
    Dar comida? Já disseram que não queriam comida mas sim dinheiro.. Eu comida se a tiver comigo, dou, mas dinheiro sinceramente custa-me a dar, até porque normalmente nunca ando com muito

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  2. Corta-me o coração ver sem abrigos, mas já dei moedas que sei que foi para droga, já apanhei sem-abrigo que não eram realmente sem abrigos, já me pediram moeda para comer e quando ofereci comida mandaram-me (mesmo!) à merda. Eu tenho imensa pena, e o que mais quero é ajudar por isso é que procuro na minha zona de residência pessoas que sei que precisam e ajudo assim. Porque ajudar para droga, ou para mentiras, não.
    Esse livro está na minha lista. :)

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  3. Não acredito que escrevi duas vezes "sem abrigos" *facepalm*

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  4. Não conhecia este livro. E quanto ao tema dos sem-abrigo, às vezes gostava de ajudar mais, de lhes fazer companhia mas há muitos que reagem mal aos que os querem ajudar. Há alguns (muitos deles) que vêem a nossa tentativa de aproximação e de ajuda como um insulto - quase como acontece com os cegos em que já tentei ajudar um a atravessar a rua e respondeu-me com 7 pedras na mão a dizer que não precisava do meu acto de piedade -.- - e depois há também aqueles que são sem-abrigo por opção própria, porque escolheram essa vida. Têm até família, tinham casa e trabalho mas optaram por se dedicar a viver na rua (sim, existem casos destes, pelo menos em Lisboa) por isso uma pessoa nunca sabe muito bem o que fazer perante um sem-abrigo porque tanto podemos ser bem recebidos como estar a insultá-los só com a nossa presença :s

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  5. Como dizes, este é mesmo um assunto delicado. Durante a minha infância, ia passear com a minha mãe e havia um cego que pedia sempre na mesma rua e eu de todas as vezes pedia à minha mãe uma moeda para o ajudar. Fiz isto durante anos e anos, todas as semanas. Até que um dia o vi a fumar... Fiquei completamente de rastos, senti-me muito mal por estar a ajudar alguém a comprar tabaco! Nunca mais lhe dei nada. Depois houve outra situação em que pediram dinheiro à minha mãe para comer. A minha mãe disse-lhe "Eu dinheiro não te dou, mas tenho um pão. Queres?" E o mendigo aceitou. Passados 5m, pegou no pão e deitou-o ao lixo!
    Foram situações como estas que agora me deixam reticentes quando vejo alguém a pedir. Nunca sei o que fazer. E depois vamos conhecendo os mendigos e ouvindo histórias sobre eles... Não sei, já me custa a confiar.
    Eu não conhecia esse livro. Mas a história parece interessante.

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  6. Eu adorei o livro por descrever uma realidade cruel de uma maneira simples. Eu acho que julgamos toda a gente (eu mesma digo muitas vezes: que vão trabalhar) mas conhecendo o contexto, percebemos que nada é fácil. Além disso, o Bob é um gato maravilhoso e super companheiro! :)

    Isa,
    http://isamirtilo.blogspot.pt/

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