19.3.15

Sociedade | A sociedade e as suas perguntas inconvenientes



É certo e sabido que ninguém está bem com a vida que tem e que haverá sempre alguém a apontar o dedo e a dizer que devíamos ter feito B e não A. Isto é válido para todos os aspectos da nossa vida nomeadamente no que diz respeito à nossa vida amorosa. 

Quando somos solteiros e chegamos àquela idade em que a sociedade acha que já devíamos ter encontrado a nossa cara metade as perguntas acerca do porquê de ainda não a termos encontrado começam a surgir e quanto mais tempo passa mais perguntas vão sendo colocadas até que chega a um ponto em que chegam mesmo a dizer que a culpa de não teres alguém especial na tua vida é tua. Não exactamente por estas palavras que dizer isto assim seria rude, por isso usam outras palavras mais simpáticas como se não fôssemos capazes de perceber o que estão na verdade a querer dizer. Por outro lado, quando finalmente encontras a tua cara metade e a apresentas à família assim que começam a namorar há algum tempo começam a surgir outro tipo de perguntas. Começam a perguntar se estão a pensar em casar ou em viverem juntos sem terem em atenção que estas perguntas podem ser desconfortáveis para o casal porque sabe-se lá se aquela não é a primeira vez que alguém os põe a pensar no próximo passo.  Depois se decidirem casar haverá sempre alguém a dizer que é um desperdício de dinheiro só para fazerem uma festinha e mostrarem como são ricos e que quando se quiserem divorciar (reparem na fé que as pessoas depositam no vosso amor!) é muito mais complicado e dispendioso. Por outro lado se decidirem viverem juntos haverá outra alma a acusar-vos de estarem a viver em pecado. Como eu disse haverá sempre alguém a dizer-vos que deveriam ter feito B e não A como se todos nós tivéssemos a obrigação de percorrer o mesmo caminho que outrem só porque este se acha o dono da verdade.

Eu nunca tive de passar pela primeira fase, mas sei que as coisas se passam mais ou menos assim porque todos os meus primos encontraram a sua cara metade já perto ou depois dos trinta e via como as pessoas os tratavam e as perguntas inconvenientes que iam fazendo. Apenas passei muito ao de leve pela segunda fase e acho que metade das pessoas perguntava isso em tom de brincadeira e a outra metade apenas perguntava por achar que os meus pais não iriam gostar que eu fosse viver com o meu namorado sem antes nos casarmos como se os meus pais me fossem obrigar a fazer algo que eu não quisesse. O que eu não estava à espera que chegasse tão cedo e para o qual eu não me preparei foi para a chegada da terceira fase. O que é a terceira fase, perguntam vocês.

A terceira fase é quando já estão sossegados a viver com o vosso mais-que-tudo, a aproveitarem a vossa vida a dois sem pensarem na possibilidade de passarem a ser três ou quatro a curto prazo e a vossa família e pessoas conhecidas em geral passarem a vida a chatear-vos a cabeça e a questionar-vos a cada cinco minutos acerca de: "então e filhos?" 

No passado Domingo, os meus tios e primos da parte do meu pai foram almoçar a casa dos meus pais e à tarde decidiram ligar-me via Skype para me dizerem olá, para saberem se me encontrava bem e para me mostrarem os novos membros da família: o segundo filho de uma das minhas primas e a namorada do meu primo. A minha prima só sabia fazer-me perguntas acerca de quando é que eu estava a pensar ter filhos, porque o melhor era tê-los agora porque quando os tens aos trinta e quatro, dizia-me ela, já não tens tanta paciência e que já era tempo de os meus pais terem netos. Juro que a cada trinta segundos vinha mais uma pergunta relacionada com este assunto. Até o meu primo que só aos trinta e dois anos encontrou a sua cara metade se achou no direito de me dizer que nos devíamos mudar para um T2 para termos um quarto para o bebé.  

Eu sei que a minha mãe também vai puxando o assunto, mas com ela tem piada porque não me diz aquilo como se fosse obrigatório já ter bebés. Agora para as restantes pessoas parece que viver a dois é algo que não faz sentido e que só passa a fazer sentido se lhe acrescentarmos um rebento. Para mim e para ele faz todo o sentido vivermos a dois, por enquanto e pelo tempo que acharmos necessário. Ainda quero fazer muita coisa sem ter a pressão de ter um filho para cuidar e para dar atenção. Ainda quero ter muitas saídas a dois sem ter a preocupação de onde e com quem deixar os nossos filhos. Acredito que há tempo para tudo e acredito que o tempo de sermos pais ainda está por chegar. Também acredito que é de muito mau tom perguntar-se quando é que o casal está a pensar ter bebés porque ninguém sabe se esse mesmo casal não estará efectivamente a tentar ter um bebé sem conseguir obter bons resultados; ninguém sabe se o casal não estará a lidar com tratamentos de fertilidade para conseguirem ter um bebé e ninguém sabe estas coisas porque muitas vezes o casal não quer que se saiba e é por isso que eu nunca por nunca faço estas questões. Primeiro porque se não gosto que me questionem acerca disso, também não vou questionar os outros, depois porque penso sempre na possibilidade de o casal querer muito um bebé e não estar a conseguir por algum motivo e por último existe sempre a possibilidade de o casal pura e simplesmente não querer ter filhos.

Já para não dizer que acho absolutamente ridícula toda esta pressão que a sociedade impõe como se o caminho para a felicidade passasse apenas por: arranjar namorado/a, casar ou juntarem-se e terem filhos.  

9 comentários :

  1. Realmente acho que descreves-te muito bem todas as fases. No meu caso ninguém me pergunta por filhos, nem insistem para que os tenha, que por acaso é uma coisa que quero muito, mas que todos me dizem para ter calma e que não é a altura certa, e ate o meu namorado acha que ainda é cedo demais.

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  2. Sabes qual é a solução? Viveres à tua maneira, única e exclusivamente (e da pessoa com quem estás, se tiveres alguém). As pessoas são no geral , muito rápidas a tecerem comentários sobre o que era ideal para a nossa vida e esquecem-se que a delas está um caos. Já tive vários exemplos na família de que cuspir para o ar nunca dá bom resultado, é o chamado karma, cai-nos sempre no prato! Por isso vive como achas melhor para ti e de consciência tranquila :) filhos, casamento, ter alguém... isso é contigo.

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  3. A mania que as pessoas têm de que as coisas têm de seguir sempre uma ordem.

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  4. Quando começam com essas perguntas inconvenientes sobre namorados e bebés eu digo logo que estou muito feliz com a minha namorada e que já submetemos os papéis para adoptar um menino africano. É uma forma de acabar com a conversa e, através do humor e do choque social, mostrar às pessoas que estão a ser mal-educadas e que a minha vida não lhes diz respeito. Depois é tentar não me rir quanto vejo a cara delas enquanto decidem se eu estava a falar a sério ou a brincar. Às vezes as pessoas não se tocam e temos que ser nós, directa ou indirectamente, a dizer-lhes que na nossa vida mandamos nós e apenas nós e que a opinião de terceiros não importa.

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  5. Basicamente é isso, arranjas um homem, casas ,tens filhos e agora sim podes morrer descansada! -.- Não tenho paciência para essas perguntas!!

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  6. Concordo tanto mas tanto com isto... É estúpido e é estereotipagem pura. Até parece que um casal é menos casal por não ter filhos! Até parece que um casal não pode aproveitar e decidir por si mesmo SE quer ter filhos e QUANDO os quer ter... Irrita, mas é que irrita mesmo. Parece que as pessoas estão sempre muito mais interessadas no que as outras fazem em vez de se forcarem nas suas próprias vidas que se calhar estão a descambar por completo. Ás vezes pergunto-me: e se o casal tiver filhos a seguir vão massacrá-los com que pergunta? Será que vão passar a perguntar quando se vão divorciar? -.-

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  7. Concordo plenamente contigo. Namoro há sete anos e meio e já dão o casório como certo.
    Quando digo que não tenciono casar ficam de olhos esbugalhados, como se dissessem "então mas vais deitar fora sete anos de namoro?!".. ahah. Eu nunca disse que ia. Só não quero casar.
    Há pessoas ainda muito apegadas à sequência de estudos, primeiro emprego, casar e filhos...

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  8. As pessoas gostam tanto de meter o nariz da vida dos outros... que às vezes esquecem-se de olhar para a delas próprias. E faças o que fizeres, vão sempre encontrar defeitos.
    Por acaso, não costumam fazer-me esse tipo de perguntas inconvenientes: sou filha única, e a família acha sempre que eu sou nova de mais para qualquer coisa. Sabem que se "me emancipar", não há mais ninguém para se "empoleirarem". Aliás, sempre fui muito de deixar bem claro que não queria casar, e que filhos, só quando e se puder/quiser tê-los. Já os amigos, seguiram quase todos para a universidade, por isso pensam primeiro em terminar os estudos e começar uma carreira, e depois em tudo o resto. Mesmo aqueles que já vivem com os namorados de longa data, sabem que há um tempo para tudo. Mas para algumas (muitas!) pessoas, a mentalidade é: namorar um par de anos, casar e ter filhos, se possível antes dos 25. Para essa, a solução é aquela dos pinguins: sorrir e acenar. ****

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