26.2.15

Pessoal | Um ano depois



O pior de se estar a viver noutro País que não o nosso surge quando algo de realmente mau acontece e nós não estamos imediatamente lá, em Portugal, para consolar e limpar as lágrimas de quem amamos. Faz hoje um ano que recebi a chamada da minha mãe a dizer-me que a minha avó tinha morrido. Estava sentada neste mesmo sofá branco onde hoje me encontro quando as primeiras lágrimas surgiram. 

Até então nunca me tinha sentido tão sozinha, tão desamparada, tão órfã de sentido existencial... Naquele dia também eu tive vontade de morrer. Lembro-me como se fosse hoje. O sofá branco, eu sentada nele a ouvir a minha mãe dizer-me "a avó morreu", o choro, o desligar da chamada, o sentar-me no chão com os joelhos dobrados e abraçada a eles a chorar, o levantar, o dia passado a limpar a casa como manobra falhada de distracção, a marcação do voo, o organizar automático da mala de viagem, a partida, o querer ir e ao mesmo tempo não querer porque não queria ver o corpo da minha avó que já não parecia ser a minha avó dentro de um caixão de madeira. 

Na altura não percebi, mas para além da tristeza que sentia encontrava-me zangada com a vida, com o meu Deus que vive independentemente de uma religião, mas mais do que isso encontrava-me zangada não só por ela me ter abandonado e me ter deixado órfã de avó sem que eu tivesse uma nova oportunidade de a ver com vida como também me encontrava extremamente zangada comigo por diversos motivos. Por nunca lhe ter dito que perdoava todas as coisas que ela tinha feito e por não me ter despedido dela na madrugada de três de Janeiro de dois mil e catorze. Sei que ela sabe que tudo ficou desculpado assim como também sei que ela deverá saber que apenas não me despedi porque tinha visto que devido à sua demência ela não iria saber que eu tinha partido uma vez mais e que a despedida em si faria com que ela ficasse extremamente abalada. No entanto, mesmo sabendo tudo isto demorou muito tempo até que eu conseguisse perdoar-me. 

Não sei se já consegui ultrapassar a perda por completo nem sei se consegui perdoar-me totalmente, mas desde que dois mil e quinze começou e que eu voltei a escrever que a minha percepção sobre o mundo mudou. Já não estou zangada e já não me sinto sozinha nem aquele vazio que me fazia ficar apática perante a vida. Sinto-me bem, feliz, com as energias renovadas e acima de tudo sinto-me abençoada não só por tudo aquilo que tenho, mas também por tudo aquilo que tive.

9 comentários :

  1. As lágrimas vieram-me aos olhos ao ler isto. Pensar em perder a minha avó, a que ainda está viva e saber que estou longe é algo que doí, e por isso não consigo sequer imaginar a dor que sentiste. Mas ainda bem que já consegues estar melhor, sem te sentires zangada.

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  2. É muito doloroso a perda de um ente querida, mais ainda estando longe assim. Ainda bem que você está se sentindo melhor e se perdoou.

    Bjos, Sheyla
    http://blogdmulheres.blogspot.com.br/

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  3. Deve ser realmente doloroso viver um momento desses longe da familia, longe do país, longe de casa...
    Um abraçinho forte!!

    Beijinho*

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  4. Não há um único dia em que eu não sinta a falta dos meus avós... A revolta foi dando lugar à saudade e às boas recordações...e quando estou triste, penso neles, nos bons momentos que eles me proporcionaram, lembro-me dos sorrisos deles e de como éramos felizes, e isso conforta-me e faz-me acreditar que eles estão sempre comigo, a olhar por mim! A tua avó estará sempre contigo, no teu coração! Força**

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  5. A perda de alguém demasiado próximo é sempre horrível... As saudades cada vez mais aumentam, mas a dor da perda vai diminuindo. Muita força*

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  6. Força querida, continuas a lembrar-te delas e dos bons momentos isso é que interessa ! :)

    Um beijinho,
    http://thedailydreamergirl.blogspot.pt/

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  7. Não sei sequer o que é perder um avô ou avó mas muitas vezes penso se hoje não será o último dia de um deles e morro um bocadinho por dentro só com essa possibilidade :s sinceramente espero que um dia consigas perdoar-te a 100% pois com certeza a tua querida avó já o fez :) força minha linda!

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